O que vai e o que fica

O que vai e o que fica

Eu já me mudei de casa uma porção de vezes. Tantas que até perdi a conta. Sempre era aquele pesadelo de inúmeras caixas e coisas aleatórias.

Tenho um pouco de vergonha de admitir, mas acumulo umas coisas. Papeis, cadernos, livros. Materiais pra criar, coisas pra vestir. Outras tantas com promessas de facilitar minha vida, mas que não entregaram nem a sombra disso e só ficaram esquecidas pelas gavetas, pegando pó nos armários.

Com o tempo fui percebendo que a experiência da mudança sempre foi tão custosa porque eu tenho dificuldade em escolher o que vai e o que fica.

Quando vim pra Brasília, minha primeira mudança de cidade e estado, foi outro pesadelo. Dias soterrada em caixas e caixas. Anunciando móveis, separando objetos, doando, vendendo… Muitas coisas ainda não consegui trazer pra cá depois de quase 5 anos. (Um salve pra quem tem seu cantinho depósito na casa dos pais) Muitas nem sei se faz mais sentido ter aqui.

Uma época eu quis ser meio minimalista. Não vou comprar mais livros físicos, eu dizia, vou deixar tudo digital, vou desenhar digital e estudar sem papel. Não vou acumular nada. Vou ter o mínimo pra me mover com facilidade. Vou ter um armário cápsula, vou ser tipo nômade digital.

Mas esse delírio não sou eu e evidentemente falhei.

Hoje, dividindo um espaço e uma vida com outra pessoa vi que essa tendência minimalista não tem nada a ver com nenhum de nós dois. Menos pior, aí nenhum dos dois sofre. Ou sofre junto mesmo. Porque consumismo é uma bosta, a gente tem muita coisa de que não precisa. É um constante exercício de se questionar o que é realmente necessário. Reconhecer que esse vazio não vai ser preenchido por uma montanha de itens de 1,99. Mas tem melhorado por aqui.

O que me pegou nesses dias foi pensar nessa dificuldade de escolher o que vai e o que fica. Seria a dificuldade de se reconhecer? Me vejo como esse emaranhado de influências. Influências da nossa idade, das nossas vivências, do nosso entorno. Não é fácil escolher o que vai e o que fica na nossa identidade. Ainda mais quando o acesso a tudo é tão fácil. Um catálogo de vidas possíveis, de estéticas, versões de si mesmo. Nem todas nos cabem. Nem todas são o que parecem, inclusive.

Essas questões tentei trazer um pouco no meu lado criativo. Eu já joguei muito caderninho fora. Como se livrasse de versões de mim mesma que não faziam mais sentido. Ou de que eu tinha pura vergonha. Se eu não tivesse mais contato é porque não existiu. Do que eu andei fugindo?

Agora penso com mais carinho nisso. Aceitei essa minha carga, ainda que questione e tente frear os impulsos de acúmulo e consumismo sem sentido. Mas eu quero guardar meus caderninhos antigos. Meus diários de angústias, de pequenas felicidades e de relatos despretensiosos dos meus dias. As coisas belas que passam eu tento ressignificar, eu tento transformar e colocar um pouco de mim. Fiz umas colagens. Guardando pedaços do que me inspira. Evidenciando esse quebra cabeça sem fim que é a gente.

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